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Andreia
C. Faria

Actividad Cosmopoética

Cosmoversos (I) - Sala Orive 19/11/2021
19:00h
Entradas:

Entrada libre hasta completar aforo

Biografía

Andreia C. Faria (Oporto, 1984) publicó su primer libro de poemas, De haver relento (Cosmorama Edições), en 2008. Le siguieron Flúor (Textura Edições, 2013), Um pouco acima do lugar onde melhor se escuta o coração (Edições Artefacto, 2015) y Tão Bela Como Qualquer Rapaz (Língua Morta, 2017). En 2019 publicó un volumen con su obra recopilada en Alegria para o fim do mundo (Porto Editora). En 2020 publicó el conjunto de prosas Clavicórdio (Língua Morta). Recibió el premio al mejor libro de poesía en los Premios Autores 2018 de la Sociedade Portuguesa de Autores con la obra Tão Bela Como Qualquer Rapaz. Este libro también fue incluido por el crítico y ensayista António Guerreiro en la lista de los mejores libros de poesía de 2017 del diario Público. Fue galardonada con el Premio Literario Fundación Inés de Castro 2019 con el libro Alegría para el fin del mundo.

Poema

Experimenta ouvir o pavão, 

o seu grito lacerado nos quintais, enquanto 

o suor velho, almiscarado, 

a urina e a cerveja morta tenham 

a cidade em cio. Experimenta ouvir 

o grito vigorando sobre os risos conjugais, sobre 

o clamor eucarístico, ali perto, nas praças, 

o grito insofrido e lento que imaginas 

propagar-se no pavão enquanto 

alguém lhe rasga a garganta e a abre 

impúdica para que vejas do avesso a vibração, 

a glote em gargarejos anelares, o estertor 

da tua juventude.

 

Sempre que ouço o pavão, o seu 

áspero elogio, dou por mim a desejar, 

talhando as mãos para o sossego, 

aprender um instrumento em vão, 

em vez de cigarros um instrumento 

para me salvar. Tocasse 

violoncelo e o apelo à gravidade 

pousar-me-ia o nostálgico contorno 

de um rapaz no corpo nu, e os que bebem 

e remexem os braseiros à procura 

de uma brasa lúcida trar-me-iam 

lágrimas, a mim que já só guardo 

alegria para o fim do mundo.

 

Imagino-me morta – 

experimenta imaginar-te morta, 

entrega-te ao luto, à luxúria sua crina, 

à beleza renovada das formas e das cores, 

e sob o grito indómito sublinha 

todos os sons. Se fazes versos, 

matura-os na cidade muda 

sob um toldo de carvão. Imagina 

a tua morte como coisa mental, 

alta e densa entre os homens, 

próspera, transparente, irradiada 

como os olhos abertos de um pavão 

que se arrepia entre os quintais.

 

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

 

 

Descarnação

Até aos trinta anos tens 
a cara que Deus te deu. Depois 
tens a cara que mereces. É uma promessa 
de ironia, uma sentença 
sem recurso.

É-te assim dito:  
estás entregue ao labor íntimo  
do que comes, ao número de horas que dormes,  
àquilo que fazes e sobretudo 
àquilo em que pensas. Deus 
(perdoa-lhe a fraqueza) 
tolera-nos enquanto somos jovens, 
ampara-nos, alisa-nos 
a fronte após um desgosto, talvez 
nos ame, mas deixa-nos 
sozinhos quando a beleza 
é terreno pouco firme

 e assiste de longe 
ao desafio temerário que lançou 
a cada filho.

 Sabes então que o rosto é uma flor  
plantada no escuro, uma corola  
tenra, redonda e impenetrável  
que desabrocha e se abre 
com as pétalas lisas e brilhantes, ou 
confusas e despenteadas, 
conforme a força 
e a direcção do vento.

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

  

NARCISOS

Um hálito venéreo ao entrarmos no carro, uma excitação fúnebre, e vi-os: caídos, quentes de sede, febris, as pálpebras pisadas pelo sol.

Tinhas colhido narcisos para me oferecer, mas deixara-los esquecidos no carro, e ali estavam como filhos únicos, a carne morna, mansa do repúdio, ávidos do perfume e do estranhamento da terra.

Podia ser meu o gesto: tocar o teu rosto, o gume da tua juventude. Ossos maciços apareciam-te com susto sob a pele, a tensa arquitectura que sofrias como uma sequela. Podia ter tocado a flor inábil da lâmina na tua face, bebê-la, aquífero num mapa árido. Era um amor concebível. Mas vindo de que perfeitas solidões, de que educação altiva em que nem a água quente nos lembrou de que vivíamos. Um amor de dentes sem brilho, o sexo coalhado e espesso, ferido pela poeira, solo impróprio onde pousar as raízes urgentes.

 

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

 

 

Conta-me entre as amêndoas

Com alguns gramas de amêndoas,
por 72 cêntimos, é possível conseguir
1 litro de leite puro
Deixe as amêndoas de molho durante a noite
(as amêndoas são seixos
serenados pela água dura),
e triture-as depois com a água de cozer
Junte na liquidificadora a fava da baunilha, 

ghost in the machine que dá ao leite
o aroma indelével da árvore em flor –
é a essa linhagem que agora pertencemos
O sabor dos laticínios nauseia-nos,
como o peito de uma mulher
que acaba de amamentar

Ou como aquela fotografia: as cinco mulheres
nuas e ajoelhadas diante da câmara
e ladeadas pelos guerrilheiros
Cada mulher, como caule
que se debate com as pedras do chão,
não pode evitar a aparição
da sua forma: esta tem as ancas tortas,
àquela vêem-se as costelas
como lenha inchada pela chuva. Nenhuma
rapa os pêlos do púbis e, não podendo evitá-lo,
a mais baixa tem o regaço convidativo –
antes de esquartejado, fará adormecer
mais do que um homem

Era nisto que pensavas de manhã
ao fazer a cama dos pais? Ainda às vezes penso
nisto enquanto com os dedos rasgo a superfície
do leite em repouso, e com o dedo indicador
fustigo o que ficou no fundo, apanho
vestígios de cascas e grumos –
no fim coe tudo com um pano fino

de Um pouco acima do lugar onde melhor se escuta o coração, Artefacto, 2015

 

SOLSTÍCIO

Por mistério, enfaixaram-me o braço –

o esquerdo, inábil, para quem tudo talvez fosse

demasiado literal.

Que não sabia nada destro nem ensurdecia o coração

e sem outra utilidade que arrepiar-se,

uma plumagem

que por mistério ardia. Por assimilação.

Ardia no fim do Verão em bolhas de urze, um rasto, leve

incitamento toda a pele.

A dor correspondia a uma idade geológica.

Uma mulher vagamente coincide

com a declinação do sol.

Na mão cresceu-me um peixe

de ossos largos, uma lua de malares acesos,

as cordas da voz pervertidas

pelo mar, pelo álcool, um homem

derramado, um rapaz

nas imediações, uma pele

amarga de humilhar ou ser amada.

 

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

 

Um desenho do meu corpo, de repente.

Um trapézio

bambo e desunido, com pontas excrescentes,

uma rosa no fundo das costas

com o gosto do húmus, o mofo das caves

e mais acima a dor

ciática, o lóbulo queimado

por magia ou vingança.

E o gosto por cantigas populares,

o cálice venéreo,

a pronúncia da terra, impúdica,

a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.

 

O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos

raramente líricos

cheio da lembrança do negrume e da pobreza,

a garganta espinhosa do sexo,

os pés calcados,

o primeiro milho nos currais da humilhação.

 

Chega-se muito resumidamente a velho.

A criança espera ao domingo o infalível

osso fluorescente, oferecido com o jornal,

o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro

de quem virá a ser, desfeita

a impura impressão de beleza,

um digno contemporâneo.

 

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

 

PREMATURIDADE

Por horror ao vazio se começa a sofrer.

Sofrer é o menos perigoso dos hábitos,

um modo indúctil de respirar.

Na verdade não sofríamos,

mas à minha amiga a manhã engolia-a

com a goela minudente de uma flor.

A mãe pulverizada, comida por um mal de pétalas –

a minha amiga perfilava-se ao microscópio para saber 

porque a tinham feito sofrer?

Tinha sido em vão deformar-lhe a morte, feri-la 

como no seio de uma cadela.

Debruçada sobre a lente

e alquebrada a minha amiga

queria compreender.

Compreender, como quem adquire uma arma.

*

Que um animal rasteje,

que tenha membros moles e com eles

force a vida: desgosta-nos.

Quando éramos crianças ouvíamos falar

do cão paraplégico e instintivamente

odiámos o vizinho. Não apenas

o vizinho, mas todos os homens, o grito

contínuo da mulher, o chiar

dos comboios no trilho, tudo o que fosse

transcender o homem nos pareceu forjado ao cão.

Que o cão nem depois reconhecesse 

o silvo entretido dos tiros, que obedecesse

às ancas surdas que ninguém lhe amparava:

revoltava-nos.

de Tão Bela Como Qualquer Rapaz, Língua Morta, 2017

 

Estou entre a idade de Cristo

e a idade com que Simone Weil morreu.

Tendo, como eles, a ampliar fenómenos,

os mitos ou o próprio mar encabeçado por um touro,

a minha roupa ao fim de um dia de uso

arrastando a areia de um qualquer abismo.

Mas se resisto às tentações é porque não as sinto.

Não as conto entre os tentáculos do dia,

a registadora máquina, a trituradora de papel.

Seriam anestésico de prazos ou da dor ciática –

logo eu que acredito em anjos, suas asas

de veludo esconjurado pelo vinho, logo eu 

que não separo o coração da violência 

couraçada de um tambor, não sinto.

O pecado, o fogo astral, a aliança entre vizinhos –

nada disto em mim figura, nenhum gatilho primordial.

Gostaria de ingressar nesse negro domínio, o entreunhas,

a carne grega, romana ou raiana dos homens,

o lugarejo, o sofisma

que colora à nascença e destrói o amor.

Quase-trinta-e-quatro, corpo-luva em ecléctico quarto,

e não sinto.

A baia espúria da fé tanto não cobre

as frias veias da razão como aparta

a visão do esterco, o sono fixo 

de cavalos, operários ou amantes.

 

de Alegria para o fim do mundo, Porto Editora, 2019

*

A gravidade planta-se

no rosto, no ventre.

É o abandono de Deus.

Por isso na montra

os manequins são livres,

fazem uma ideia oca

inversa

vertiginosa de Deus.

Choro-lhes no ombro até que me comova

a forma humana, as coisas a que pede servidão.

 Choro na infância o terror frio

da lua, o leite fervido,

a velha náusea que se forma à superfície.

 Tudo me lembra a rósea ferida,

a amálgama dos ossos

cujo brilho a noite, a queda, um som

quebrado expõem.

 Tudo

lembra o deslace,

Deus e carne

em feia luta.

 Que o corpo, em seu afinco,

é um degrau difícil de descer.

de Alegria para o fim do mundo, Porto Editora, 2019

 

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